Eu lembro de quando eu tirei essa foto do meu pai. Era madrugada, ele não conseguia dormir. Foi a primeira noite que passei como acompanhante dele no hospital depois da cirurgia pra retirar o tumor da cabeça. Era tudo novo pra mim, muitas incertezas sobre o futuro e a esperança de que tudo ia ficar bem.
Eu tinha pressa. Pressa pra que o meu pai ficasse bem logo, que ele voltasse a falar, voltasse a andar, voltasse a ser… o meu pai.
Mas ali, eu me deparava com uma nova realidade a qual eu não queria aceitar. E, ao bater a foto, eu queria que o tempo parasse pra que eu tivesse a chance de entender o que tava acontecendo. E num piscar de olhos, que o tempo acelerasse para o momento em que tudo ficasse bem.
Eu tinha pressa… pq não me sentia pronta para lidar com os desafios que eu sabia que estavam por vir.
Eu me lembro de ficar acordada, olhando o meu pai inquieto enquanto eu repetia incansavelmente pra mim mesma: vai passar, vai passar.
Lembro também, quando eu me dei conta que ele estava na sua terminalidade, que eu tive pressa pra que a partida acontecesse logo. Como tirar um band aid pra não doer. Não pq eu queria que ele partisse, mas pq eu não aguentava mais.
O câncer faz a gente ter pressa: pressa de viver, de aproveitar cada instante com quem a gente ama, pressa de viver a vida. Mas, depois, essa jornada me ensinou a desacelerar, como no momento dessa foto.
Eu entendi a importância da respiração e de apreciar o que tá na nossa frente, no aqui e no agora. Não é fácil, mas quando encaramos de frente a finitude da vida, passamos a valorizar o que realmente importa. Sem pressa. Sem a necessidade de acelerar o tempo para poder apreciar a caminhada e quem está com a gente nela.
Eu comecei a enxergar o tempo de outra maneira. O meu pai levou 8 meses para descansar. Foi o tempo suficiente pra me transformar e o suficiente pra ele não sofrer.
O que antes parecia uma corrida contra o relógio se transformou em uma dança lenta da vida, que me convida a sempre me questionar: o que realmente importa pra mim aqui e agora?
É… a gente não pode controlar o fim, mas podemos escolher como vivemos até lá 💚
Conta pra mim: qual é a sua pressa?